Humor, crítica, crônica, comédia e sátira sobre o Rio de Janeiro, o Brasil e o Mundo |  Defendendo o humor inteligente do Capitalismo e do Aquecimento Global, antes que se torne brinde de pasta de dentes
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008



Inteligência de Marketing

Duas histórias sobre Inteligência de Marketing:

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Eu estudava num curso de pós graduação de determinada instituição, que prefiro não revelar, e havia um aluno não muito modesto que insistia em 'ganhar' as discussões em sala com a última opinião. Estava sempre disposto a ilustrar uma discussão sobre Finanças com informações sobre o processo de extração de petróleo na época de Thomas Edison. Ele foi carinhosamente alcunhado de 'Só-pra-Finalizar'. Só-pra-Finalizar trabalhava, nas suas próprias palavras, com Inteligência de Marketing. Ninguém se interessava em aprofundar essa conversa.

Graças à sua ação devastadora sobre a participação média da turma, Só-pra-Finalizar ficou conhecido entre os professores, de tal forma que, quando iniciou-se uma nova disciplina, o novo professor já estava avisado do perigo.

Já na primeira aula, Só-pra-Finalizar, só-pra-finalizando, versou sobre as tendências dos novos materiais utilizados nos armamentos americanos, em plena aula de Contabilidade.

Finalizada a finalização, com muita calma, o professor se dirige a ele:

- Você trabalha com quê?
- Eu trabalho com Inteligência...
- Ainda bem, pois caso contrário seria o primeiro a trabalhar com Ignorância. Que eu conheça...
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A outra história foi num antigo emprego meu, numa empresa de internet, que prefiro não referenciar.

Vivia minha vida sossegado, junto ao resto da equipe, trabalhando com dedicação exemplar, quando uma pessoa do RH, responsável por nos mudar de baia a cada semestre, se aproxima.

- Você vai mudar de lugar.
- Mas não passaram 6 meses...
- É, mas esse lugar vai ser do estagiário de Inteligência de Marketing que chega semana que vem.
- E eu vou pra onde? O resto da equipe tá todo aqui...
- Vou arrumar um lugar provisório pra você ali no corredor.
- Ué, o novo estagiário da Inteligência de Marketing vai pro lugar definitivo enquanto o funcionário da Burrice de Tecnologia vai prum lugar improvisado?
Dois dias depois eu estava numa mesa pequena e velha, fingindo chegar pra frente toda vez que alguém passava pelo corredor.

Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007



Esse é pra cassar

E eis que Renan teve êxito onde o Corinthias falhou: escapar da segunda. Numa manobra mais do que esperada Renan renunciou. Mas só à Presidência do Senado. Horas depois, absolvido e aliviado pela segunda vez em um ano, retomou o trabalho de Senador, o qual só teve oportunidade de cumprir por 4 meses esse ano, embora os 20 salários, bônus, jeton, cotas e tudo o que tem direito esteja garantido até o fim do mandato.

Ou vão julgar o cara uma terceira vez? Aí nem eu aguento.

Com este segundo segundo mandato, serão 16 anos a serviço da nação brasileira. O que dá direito a aposentadoria com salário integral. Mais que merecidos.

Falar nisso, a boa notícia é que o povo brasileiro está vivendo mais. E por isso tem a oportunidade de ter mais desgostos, em especial com o trabalho e com o valor de sua pensão, já que graças às regras de previdência pública, quanto mais o povo vive, mais ele trabalha e menos ele recebe.

Já tem gente torcendo pra violência no Rio aumentar e assim a expectativa de vida cair novamente.

Lobão já dizia que é melhor viver 10 anos a mil do que mil a 10. E olha que mil cruzeiros não compravam nada em 86.

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007



Jogos Mortais (de Filosofia)

Tenho andado sonolento. Hoje cedo fui esquentar o leite no microondas. Acabei conseguindo ligar o aparelho com a tampa aberta. Liguei correndo para o meu médico:

- Doutor, aconteceu um acidente.
- Quem é?
- É o Marcelo. Aconteceu um acidente.
- O que houve?
- Aconteceu um acidente e não sei o que fazer.
- Mas que tipo de acidente??
- Com o microondas. O que eu faço, rápido,pra proteger meu DNA?
- Proteger o quê?
- Meu DNA! Eu não quero virar um mutante...
- Cara, você consegue ir pro meu consultório? Eu tô a caminho de lá.
- Tá, eu chego lá num instante. Até já.
Deve ser exagero, mas com todos esses filmes de super-herói eu tenho medo de me expor a microondas, inseticida, raios cósmicos, a luz da Lua, sei lá. Porque se eu ganhasse super-poderes, com minha raiva não controlada e minha racionalidade exagerada, eu com certeza me tornaria um super-vilão, sádico e psicopata.

Mas meu médico não compartilha do meu zelo, e me encaminhou para terapia. "Já faço terapia, Doutor". "Cara, tira umas férias e descansa".

Bem que eu gostaria, mas o trabalho tem acumulado no escritório e, aliás, eu já estava bem atrasado.

Corri para o metrô, almocei qualquer coisa, e subi de escada até o primeiro andar (são 10 lances de escada, vai entender porque o primeiro andar fica no quinto piso). Fui ao banheiro, encontrei um amigo ali no mictório. "E aí? Tudo certo?". "Tudo certo...". Ficou aquele clima estranho, aquele silêncio chato como se o papo devesse continuar. Sabe aquela coisa da urina simplesmente não sair? Inventei qualquer coisa, de improviso:

- Já pensou que se não fosse o mictório e as divisórias seríamos simplesmente dois homens lado a lado com o dito-cujo na mão?
- Hein...?
- Deixa pra lá, tô filosofando demais hoje.
Talvez esteja filosofando demais desde há muito tempo.

Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007



Coração Suburbano

Existem coisas que eu simplesmente não entendo. Uma delas é comercial de perfume. Outra é como numa cidade do porte do Rio de Janeiro pode ainda existir tanta demanda reprimida.

Veja bem, nasci, me formei, me casei e me reproduzi na Zona Norte. Morava na região da Leopoldina e agora na Tijuca. Em Olaria, vira e mexe falta água (por mais de 15 dias). A única rede de pizzarias famosa que atende é a Mister Pizza! Todos os cinemas fecharam, e olha que nem foi pra virar igreja. Foi um martírio conseguir, por exemplo, empresa que me fornecesse banda larga (meus amigos da zona sul já surfavam via cabo ou rádio há mais de 5 anos quando finalmente apareceu a primeira conexão a 256kbps por lá).

É chato saber que a maior parte da cidade, com o maior número de habitantes, passa despercebida por quem deveria ter melhor visão. É o que dá uma Dinastia de prefeituras Zona Sul e Barra... Tiram os mendigos de lá, jogam pra cá, e pronto. Gastam tubos pra despoluir as praias de lá, e cá mal tem água. Colocam estátua e fazem a jardinagem nas praças de lá, e cá o asfalto é só buraco, a calçada também.

Conversando com o gerente de marketing de um restaurante famoso sobre essa escassez de serviços, ele me perguntou: "Ué, e o pessoal lá tem dinheiro pra comprar pizza?". "Não, lá a gente come terra e bebe água da chuva".

O fenômeno do celular finalmente mostrou a todos (que queriam ver) que suburbano consome, claro. Alguém já passeou em Madureira perto do Natal? Existe lugar no mundo mais dedicado ao comércio? Nenhum shopping de Miami se compara. Eu chutaria que o PIB verdadeiro da cidade do Rio (contando o mercado informal) tem a sua maior fonte num raio de cinco quarteirões da estação Madureira.

Estive por lá no fim do ano passado. Era uma bela manhã de sábado. O mês de dezembro acabara de chegar prometendo um grande verão para a cidade. Os pássaros cantavam, os motores roncavam, os carros buzinavam, o calor aumentava, os guardas apitavam, os camelôs gritavam, nenhum vento soprava, as lojas lotavam, as pessoas empurravam e compravam, como compravam!

Comprei boa parte das coisas do bebê por aquelas bandas. Tudo bonito e de qualidade. Lembrei de quando ia à Madureira para estudar (fiz o pré-vestibular e o curso de inglês ali) e namorar (foi onde conheci minha esposa). Nessas memórias a calçada da Carolina Machado nem era tão infernal assim...

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007



Uni-duni-tê

Coisa boa de se tornar um ser imerso na Internet é rir de tudo que se diz absoluto, correto. Você vê a tal campanha do Estadaço. A World Weird Web brasileira tem 15 milhões de ruivos de aparelhos contando mentiras pra pegar mulher gostosa. Já os jornais de "respeito" do país têm seus 15 editores-chefes, totalmente éticos, livres de comprometimento com picuinhas político-sócio-econômico-pessoais.

Quando eles publicam que os bancos financiaram a campanha do presidente eleito e esquecem de mencionar que os mesmos bancos também financiaram a campanha do segundo colocado, eles simplesmente estão otimizando o espaço jornalístico. Tal omissão não tem nenhum viés de associar lucros recordes dos bancos com a atual gestão do país.

Quando eles publicam que não se pode confiar em qualquer coisa que você lê, eles não estão dizendo que você também não pode confiar só no que alguém escreve. No fundo, você pode mentir omitindo a verdade ou contando apenas uma parte dela. Esse é o perigo de usar apenas uma fonte para se manter informado.

Pense bem, em que é melhor confiar: (a) num infinito de pequenas vozes semicaóticas e independentes ou (b) num seleto grupo de mega-corporações de mídia voltadas ao lucro e a sustentação de seus donos, acionistas e empresas afiliadas?

Acho que você já entendeu que a resposta não é imediata.

Vivo num embate com colegas sobre o poder de processos & métodos e o poder do talento. O que eu nunca entendi foi como a discussão ao longo da história colocou cada coisa em lados opostos da mesa: processos vs. pessoas.

O que é mais importante num carro? O volante, o acelerador ou o freio? Se você escolher um dos três, nem me ofereça carona!


PS: O Mamendex de hoje foi assim, pá e bola, rapidinho. Estamos testando um novo formato mais post, fast, mix, fashion, prime, ...

Gostou? Não gostou? Tanto faz? Comente, ligue, mande um e-mail, poste um vídeo-resposta, comunique-se!



Cutucada rapidinha

Apesar do esforço da Veja, não é que mais uma crise econômica mundial passou pelo Brasil que nem marola?

Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007



Humor, emprego, ócio e gêmeos maus

Falar de si mesmo nunca é fácil.

Piora um pouco quando o você ao qual você se refere é na verdade um pseudônimo de seu alter-ego. Um personagem para o qual você dedica seu potencial e canaliza assim a energia que era desperdiçada no seu dia-a-dia como você mesmo (quem come quem??).

Essa dedicação ocupa seu tempo, claro, e muitas vezes atrapalha sua identidade original. Assim, o que era pra ser um hobby acaba estressando mais do que deveria.

E assim resolvi fazer terapia com uma profissional de verdade.

Eu não soube definir se seria uma terapia ocupacional, grupal, coletiva, já que éramos dois os envolvidos (eu e eu mesmo). Quando eu soube que só eu mesmo já era 3: id, ego e superego; fiquei boquiaberto. Cacete, somos 6 sentados aqui nessa cadeira então, doutora?

Comentei com minha terapeuta, ao reclamar do trabalho, que eu não me sinto realizado com isso.

- O que te deixa realizado então? Com o que você gosta de trabalhar?
- Eu não gosto de trabalhar. Acho que nasci pra outra coisa.
Ela riu. Minha terapeuta riu de mim. Até hoje não sei se uso essa minha capacidade - de fazer as pessoas rirem de mim - de forma construtiva.

- Tia Terapeuta, e se eu for na verdade meu gêmeo mau?
- Nosso tempo acabou. Que tal terça às 10h?
Resolvi pesquisar a fundo essa história de gêmeo mau pra poder explicar melhor.

Segundo consta (na Wikipedia), o gêmeo mau (ou maligno) reflete a dicotomia entre o bem e o mal que existe dentro de nós. Seu gêmeo mau é a cópia exata de você, exceto por ser moralmente antagônico e possuir cavanhaque. Ou seja, ele é na verdade o que você gostaria de ser: uma pessoa livre dos tabus e regras sociais, disposto a fazer de tudo pra conseguir seus objetivos, e que ainda por cima tem menos trabalho pra fazer a barba.

A origem do gêmeo mau está na própria origem do conceito bem x mal: a religião. Consta que o primeiro gêmeo mau foi Cain. Embora não fosse exatamente gêmeo de Abel, era mau o suficiente pra se encaixar na definição...

Vida de gêmeo mau é difícil, pois tudo que ele faz perturbar o gêmeo bom. E o destino do gêmeo mau é ser destruído, ou receber prisão perpétua. O final alternativo é quando o gêmeo mau tira o cavanhaque e faz com que o gêmeo bom seja morto em seu lugar. A moral é que no mundo da ficção não há lugar para gêmeos...

Na literatura, Beowulf é considerado como abordagem do tema, pois apesar de o monstro não ter nenhuma aparência física com o herói, é na verdade a inversão das ações dele.

Em Jornada nas Estrelas, outro exemplo intrigante, enquanto o gêmeo mau de Spock usava adequadamente o cavanhaque, o gêmeo mau de Kirk tinha a cara limpa...

Vários exemplos de gêmeos maus: O Homem da Máscara de Ferro, High School Musical, Futurama, Os Simpsons (nos dois últimos, assim como em South Park, o personagem principal é que era no final das contas, o gêmeo mau). Até em jogos, como Metroid Prime e Zelda. A influência é tamanha que em Lost chegaram a dizer (numa cena deletada) que "só é novela quando o gêmeo mau aparece". Uma pista sobre futuras temporadas?

Com o tempo, o conceito de gemeo-malignidade foi se expandindo, menos preso aos clichês. Surgiu a idéia de universo espelho, composto de gêmeos maus dos habitantes do universo original. Num episódio de South Park que aborda o tema, o gêmeo mau de Cartman (devidamente cavanhaquezado) era, na verdade, muito gentil.

O Bizarro por exemplo, gêmeo mau do Super-homem, casou com uma gêmea má da Lois Lane e gerou todo um Mundo Bizarro, onde a chuva cai pra cima, as zebras caçam as leoas e o Governo paga imposto aos habitantes.

A gêmea má da Lois Lane não tem cavanhaque. A bem da verdade, as gêmeas más não costumam se diferenciar no pelo facial, mas sim pela cor ou tamanho dos cabelos, ou mais recentemente, pelo sotaque. Truque oriundo das novelas de rádio, onde obviamente, as diferenças entre os gêmeos não são físicas, mas sim no timbre da voz.

Ainda no caso do Super-Homem, ele tem um gêmeo mau - Bizarro - um alter-ego - Clark Kent. A diferença entre os dois últimos, bizarrices à parte, estaria em ter a mesma índole (alter-ego) ou a índole inversa (gêmeo mau) do personagem.

Então não sou meu gêmeo mau. Sou só um simples alter-ego mesmo. Menos mal :)

Confesso, tem sido cansativo administrar essa micro-empresa. Domínio, DNS, Blogger, Google Apps, Adsense... Mas nada disso se compara a outra opção: me dedicar ao meu emprego!

Brincadeiras a parte, meu emprego tem exigido muito de mim e me sinto frustrado em não conseguir responder à altura. Mais frustrado do que quando tenho que ouvir quieto as piadas do tipo "é isso aí, funcionário público tem muito tempo livre pra ficar escrevendo blog...".

Palavras fortes, venenosas... doem bastante.

Mas se uma geração de grandes escritores brasileiros surgiu dos servidores do Governo, então eu sou só a continuação dessa história. Afinal, quem foi que disse que Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade não eram servidores altamente dedicados?

Na segunda-feira, observando a lua (que por sinal estava um cartão postal), eu pensei que talvez minha vocação fosse exatamente essa: não fazer nada e contemplar tudo. Talvez eu seja um Vinicius de Moraes, ou um Tom Jobim, ou um Pablo Neruda, só que sem nenhum talento.

Se pra ser um grande poeta ou um grande brasileiro é necessário algum talento, então eu precisava de uma segunda opção. Talvez eu pudesse ser um monge budista.

Consegui alguns livros, estudei bastante. Mas acho que não levo jeito. Eu não poderia mais fazer churrasco, andar a cavalo, fazer sexo, roubar, etc. E ainda ia querer rediscutir várias das regras milenares. Como é que é essa história da Flor de Lótus aí?

Não gosto de reconhecer, já que admiro tanto o trabalho árduo, mas minha vontade mesmo é a de ser vagabundo. Pensando bem, talvez isso seja por si só um talento.

Um ponto positivo foi ter nascido no Brasil. Nosso país é o único no mundo que garante o direito universal à vagabundagem. Em especial no Rio de Janeiro, terra da praia às segundas-feiras.

Por exemplo, em que outro país você poderia colocar uma cadeira e ficar sentado na porta de um banco o dia inteiro, simplesmente observando o vai e vêm do gerente, funcionários e clientes? Enquanto você não sacar a arma e anunciar o assalto, ninguém pode te tirar dali.

Muito calor dentro de casa? Pegue o colchão e durma na rua, na marquise de qualquer prédio. Ou fique só deitado ali, com sua cervejinha, observando o cair da tarde de domingo. Ou de terça. Mais uma vez, ninguém pode te obrigar a sair dali. E se a marquise cair, você ainda ganha uma boa indenização...

Dizem que é proibido tomar banho no chafariz, mas eu nunca vi ninguém ser reprimido por isso... nem por lavar a roupa. Na dúvida, não passe xampú, pra caso tenha que sair correndo não ficar com o cabelo todo seboso.

E a grande dica: mantenha uma caixinha no chão por perto porque sempre tem uma velhinha distribuindo trocados para quem mantém viva a autêntica malandragem carioca...


Serviço

Mais sobre gêmeos maus na Wikipedia em inglês ou português.

Onde comprar os livros, filmes, séries, quadrinhos e jogos citados: Vinicius, Jobim, Superman, Jornada nas Estrelas, South Park, Futurama, Os Simpsons, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda.

Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007



Causas e conseqüências

Continuando o papo sobre causas, vamos falar hoje sobre o movimento em defesa dos direitos humanos, da criança e do adolescente, dos animais, o movimento liberal e o movimento do software livre. É, estou tão animado quanto você.

Fiz o dever de casa e fui buscar informações sobre estas instituições. O movimento dos direitos humanos, por exemplo, defende garantias mínimas de vida, saúde e acesso a mecanismos legais e governamentais a todas as pessoas do mundo. Geralmente ele entra em conflito com a galera do movimento liberal, que pede que o governo interfira menos no dia a dia da população, e deixe os mecanismos de mercado (trabalho, remuneração e lucro) regularem as engrenagens sociais. O que geralmente é mal visto pela população brasileira, já que o brasileiro médio acha que trabalho é castigo, dinheiro cai do céu, as empresas são o Diabo, e o governo é Deus na Terra para os homens de bem. Vinde a nós.

Bem lembrado. Geralmente a defesa de uma causa se mistura com a Religião. O movimento pelos direitos dos animais, por exemplo, defende que tudo que se move e não faz fotossíntese têm quase os mesmos direitos que os seres humanos. Ainda não existe um movimento pelos direitos dos vegetais, ou dos minerais, ou dos fungos, ou do reino protista, ou monera. Mas imagino que algum direito eles tenham, pô!

Afinal você gostaria de ser arrancado de seu habitat natural e enfeitado com mil luzes pra servir de adorno na ceia de Natal? Ou ficar preso a um vaso minúsculo inibindo seu crescimento e ser constantemente mutilado para o exercício de paciência de um japa? Ou ser afogado no seu próprio excremento até morrer intoxicado de álcool ou oxigênio?

Todos os seres vivos estão sujeitos ao abate para alimentação ou vestimentas, ao uso para carga, e ainda, à exploração para simples adorno. Afinal de contas, existe realização maior para um cachorro descendente dos grandes lobos, ou um gato herdeiro legítimo dos tigres, do que andar pelo Rio Design no colo das madames? É ou não é a vida que eles pediram à Fauna?

Inclusive, é mais ou menos esse o objetivo da OAB para com os advogados (e seus melhores clientes).

Pra mim crueldade mesmo é eliminar a capacidade analítica e o caráter de um ser vivo. Transformá-los em zumbis passivos e consumistas. No momento que alguém convence uma pessoa inteligente que é engraçado ver um rapaz de dentadura falsa fazendo uma imitação barata de mais de 20 anos de antiguidade, ou uma mulher de peruca com voz estridente gritando histérica e desafinada, pode-se dizer que você roubou parte da essência dessa pessoa.

Mais ou menos aquilo que os índios temiam quando alegavam que a fotografia lhes roubaria a alma.

Não é a toa que os blogs e sites diversos se multiplicam, na tentativa de resgatar um pouco da autenticidade que se perdeu com a comunicação em massa. Talvez a situação hoje seja parecida com um novo Renascentismo, onde ver as mesmas notícias, ler as mesmas coisas, ter os mesmos interesses que todo o mundo não faz mais o menor sentido. Estamos todos antenados, mas cada um na sua :)

Saímos da Idade Média dos mega-portais e do jornalismo de viés político, dos infomerciais religiosos, das piadas enlatadas prontas pra aquecer no microondas, das pegadinhas e cassetadas orientais, e caímos de frente na multiplicação explosiva de pílulas de informação, próximas e afastadas da origem, ilhas de opinião, discussão e comentários, e especialmente, num vasto material humorístico espalhado pelos 4 cantos.

Óbvio que a maioria absoluta desse material está abaixo da linha de consumo. Fora que temos mais spammers, todo dia alguém posta uma mensagenzinha ridícula no seu scrapbook, blogueiros travam batalhas e atropelam o bom-senso por um punhado de audiência... Mas o mecanismo de acesso democrático da Internet mostra sua força; da quantidade podemos tirar a qualidade, e por que não o dizer: tem gosto pra tudo!

Mais que blogers e video-makers, muitos vêm se erguendo na defesa da inteligência do humor, e lutam para trazer de volta a dignidade para a Comédia. É o caso dos movimentos como o Comédia em Pé, o Sindicato da Comédia e o Clube da Comédia. Não se engane com a pouca criatividade na hora de batizar os grupos, esse pessoal tem muito a oferecer. Não se deixe levar pelas caras feias tampouco, pois esse pessoal seria engraçado mesmo se houvesse a remota possibilidade de serem bonitos.

Você, amigo, faça sua parte, junte-se a nós, produzindo e consumindo o humor refinado, a comédia sagrada e sátira inteligente, que tanto fazia falta em nossa geração.

Deixe de ficar assistindo a filmes ridículos com humor de banheiro. Esqueça os programas que apresentam semana atrás de semana as mesmas piadas sem graça. Tape os ouvidos para os bordões repetidos infinitamente na tentativa desesperada de fazer alguém rir.

Ajude a preservar o humor inteligente da extinção para que as próximas gerações possam conhecê-lo.



Comédia em Pé

Apresentação do Henrique 'Ai cacete' da semana passada:

http://br.youtube.com/watch?v=JKMnArzmq9g