Humor, crítica, crônica, comédia e sátira sobre o Rio de Janeiro, o Brasil e o Mundo |  Defendendo o humor inteligente do Capitalismo e do Aquecimento Global, antes que se torne brinde de pasta de dentes
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008



Inteligência de Marketing

Duas histórias sobre Inteligência de Marketing:

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Eu estudava num curso de pós graduação de determinada instituição, que prefiro não revelar, e havia um aluno não muito modesto que insistia em 'ganhar' as discussões em sala com a última opinião. Estava sempre disposto a ilustrar uma discussão sobre Finanças com informações sobre o processo de extração de petróleo na época de Thomas Edison. Ele foi carinhosamente alcunhado de 'Só-pra-Finalizar'. Só-pra-Finalizar trabalhava, nas suas próprias palavras, com Inteligência de Marketing. Ninguém se interessava em aprofundar essa conversa.

Graças à sua ação devastadora sobre a participação média da turma, Só-pra-Finalizar ficou conhecido entre os professores, de tal forma que, quando iniciou-se uma nova disciplina, o novo professor já estava avisado do perigo.

Já na primeira aula, Só-pra-Finalizar, só-pra-finalizando, versou sobre as tendências dos novos materiais utilizados nos armamentos americanos, em plena aula de Contabilidade.

Finalizada a finalização, com muita calma, o professor se dirige a ele:

- Você trabalha com quê?
- Eu trabalho com Inteligência...
- Ainda bem, pois caso contrário seria o primeiro a trabalhar com Ignorância. Que eu conheça...
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A outra história foi num antigo emprego meu, numa empresa de internet, que prefiro não referenciar.

Vivia minha vida sossegado, junto ao resto da equipe, trabalhando com dedicação exemplar, quando uma pessoa do RH, responsável por nos mudar de baia a cada semestre, se aproxima.

- Você vai mudar de lugar.
- Mas não passaram 6 meses...
- É, mas esse lugar vai ser do estagiário de Inteligência de Marketing que chega semana que vem.
- E eu vou pra onde? O resto da equipe tá todo aqui...
- Vou arrumar um lugar provisório pra você ali no corredor.
- Ué, o novo estagiário da Inteligência de Marketing vai pro lugar definitivo enquanto o funcionário da Burrice de Tecnologia vai prum lugar improvisado?
Dois dias depois eu estava numa mesa pequena e velha, fingindo chegar pra frente toda vez que alguém passava pelo corredor.

Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007



Esse é pra cassar

E eis que Renan teve êxito onde o Corinthias falhou: escapar da segunda. Numa manobra mais do que esperada Renan renunciou. Mas só à Presidência do Senado. Horas depois, absolvido e aliviado pela segunda vez em um ano, retomou o trabalho de Senador, o qual só teve oportunidade de cumprir por 4 meses esse ano, embora os 20 salários, bônus, jeton, cotas e tudo o que tem direito esteja garantido até o fim do mandato.

Ou vão julgar o cara uma terceira vez? Aí nem eu aguento.

Com este segundo segundo mandato, serão 16 anos a serviço da nação brasileira. O que dá direito a aposentadoria com salário integral. Mais que merecidos.

Falar nisso, a boa notícia é que o povo brasileiro está vivendo mais. E por isso tem a oportunidade de ter mais desgostos, em especial com o trabalho e com o valor de sua pensão, já que graças às regras de previdência pública, quanto mais o povo vive, mais ele trabalha e menos ele recebe.

Já tem gente torcendo pra violência no Rio aumentar e assim a expectativa de vida cair novamente.

Lobão já dizia que é melhor viver 10 anos a mil do que mil a 10. E olha que mil cruzeiros não compravam nada em 86.

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007



Jogos Mortais (de Filosofia)

Tenho andado sonolento. Hoje cedo fui esquentar o leite no microondas. Acabei conseguindo ligar o aparelho com a tampa aberta. Liguei correndo para o meu médico:

- Doutor, aconteceu um acidente.
- Quem é?
- É o Marcelo. Aconteceu um acidente.
- O que houve?
- Aconteceu um acidente e não sei o que fazer.
- Mas que tipo de acidente??
- Com o microondas. O que eu faço, rápido,pra proteger meu DNA?
- Proteger o quê?
- Meu DNA! Eu não quero virar um mutante...
- Cara, você consegue ir pro meu consultório? Eu tô a caminho de lá.
- Tá, eu chego lá num instante. Até já.
Deve ser exagero, mas com todos esses filmes de super-herói eu tenho medo de me expor a microondas, inseticida, raios cósmicos, a luz da Lua, sei lá. Porque se eu ganhasse super-poderes, com minha raiva não controlada e minha racionalidade exagerada, eu com certeza me tornaria um super-vilão, sádico e psicopata.

Mas meu médico não compartilha do meu zelo, e me encaminhou para terapia. "Já faço terapia, Doutor". "Cara, tira umas férias e descansa".

Bem que eu gostaria, mas o trabalho tem acumulado no escritório e, aliás, eu já estava bem atrasado.

Corri para o metrô, almocei qualquer coisa, e subi de escada até o primeiro andar (são 10 lances de escada, vai entender porque o primeiro andar fica no quinto piso). Fui ao banheiro, encontrei um amigo ali no mictório. "E aí? Tudo certo?". "Tudo certo...". Ficou aquele clima estranho, aquele silêncio chato como se o papo devesse continuar. Sabe aquela coisa da urina simplesmente não sair? Inventei qualquer coisa, de improviso:

- Já pensou que se não fosse o mictório e as divisórias seríamos simplesmente dois homens lado a lado com o dito-cujo na mão?
- Hein...?
- Deixa pra lá, tô filosofando demais hoje.
Talvez esteja filosofando demais desde há muito tempo.

Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007



Coração Suburbano

Existem coisas que eu simplesmente não entendo. Uma delas é comercial de perfume. Outra é como numa cidade do porte do Rio de Janeiro pode ainda existir tanta demanda reprimida.

Veja bem, nasci, me formei, me casei e me reproduzi na Zona Norte. Morava na região da Leopoldina e agora na Tijuca. Em Olaria, vira e mexe falta água (por mais de 15 dias). A única rede de pizzarias famosa que atende é a Mister Pizza! Todos os cinemas fecharam, e olha que nem foi pra virar igreja. Foi um martírio conseguir, por exemplo, empresa que me fornecesse banda larga (meus amigos da zona sul já surfavam via cabo ou rádio há mais de 5 anos quando finalmente apareceu a primeira conexão a 256kbps por lá).

É chato saber que a maior parte da cidade, com o maior número de habitantes, passa despercebida por quem deveria ter melhor visão. É o que dá uma Dinastia de prefeituras Zona Sul e Barra... Tiram os mendigos de lá, jogam pra cá, e pronto. Gastam tubos pra despoluir as praias de lá, e cá mal tem água. Colocam estátua e fazem a jardinagem nas praças de lá, e cá o asfalto é só buraco, a calçada também.

Conversando com o gerente de marketing de um restaurante famoso sobre essa escassez de serviços, ele me perguntou: "Ué, e o pessoal lá tem dinheiro pra comprar pizza?". "Não, lá a gente come terra e bebe água da chuva".

O fenômeno do celular finalmente mostrou a todos (que queriam ver) que suburbano consome, claro. Alguém já passeou em Madureira perto do Natal? Existe lugar no mundo mais dedicado ao comércio? Nenhum shopping de Miami se compara. Eu chutaria que o PIB verdadeiro da cidade do Rio (contando o mercado informal) tem a sua maior fonte num raio de cinco quarteirões da estação Madureira.

Estive por lá no fim do ano passado. Era uma bela manhã de sábado. O mês de dezembro acabara de chegar prometendo um grande verão para a cidade. Os pássaros cantavam, os motores roncavam, os carros buzinavam, o calor aumentava, os guardas apitavam, os camelôs gritavam, nenhum vento soprava, as lojas lotavam, as pessoas empurravam e compravam, como compravam!

Comprei boa parte das coisas do bebê por aquelas bandas. Tudo bonito e de qualidade. Lembrei de quando ia à Madureira para estudar (fiz o pré-vestibular e o curso de inglês ali) e namorar (foi onde conheci minha esposa). Nessas memórias a calçada da Carolina Machado nem era tão infernal assim...

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007



Capitão Brasil

E tantos anos depois de Macunaíma e João Grilo, o Brasil tem um novo herói nacional. Capitão Nascimento mostra aquilo que o mundo já sabe: não se faz uma omelete sem quebrar ovos. Não se faz um bolo sem quebrar ovos. Aliás, antes de mais nada é sempre bom quebrar uns ovos.

Se para combater a recessão nos EUA surgiu o Super-homem, pra chutar o traseiro do Hitler e saudar os Marines surgiu o Pato Donalds, e pra dar voz aos liberais e cutucar os Republicanos surgiram Os Simpsons, nosso Capitão surge pra finalmente homenagear os policiais cariocas, que diariamente colocam o peito na linha de tiro pra defender a segurança de nosso estado, além é claro de liberar a gente daquela multa mediante a cervejinha.

Contradições à parte, há muito tal Corporação merecia algo mais que um tapinha nas costas. Quando um traficante morre ou é preso ele fica famoso, vira até mártir pros funkeiros, pra OAB e pros Direitos dos Humanos. Quando um policial morre ele é nota de pé de página. E pra galera do status-quo, não fez mais que seu dever de garantir a segurança para que os advogados e juízes possam viver suas vidas tranquilos - e longe de tiroteio.

Nessa terra de muitos contrastes e pouco brilho, tem marginal querendo ser preso só pra realizar o sonho de andar de avião sem enfrentar fila de guichê. E tem classe média consumindo drogas pra aliviar a pressão: "Ah, nada a ver, as drogas sempre existiram". Ué, e quando a violência foi inventada??

É uma coisa que eu sempre digo: enquanto for difícil diferenciar castigo de recompensa, vai ser difícil escolher entre boas e más ações.

Sábado, 20 de Outubro de 2007



Fim de semana no shopping

Fui no fim de semana passado a um shopping da zona norte no Rio. Não posso dizer o nome, mas é aquele shopping que vira e mexe é metralhado de madrugada. Pois bem, lá fui com minha esposa, meu filho, meus irmãos, minha cunhada e meu sobrinho.

Almoçamos num botequim por lá. Não posso dizer o nome tampouco. Quer dizer, não posso é maneira de dizer, não quero. Não recebo pra isso. Se recebesse falaria em bom som: "Fui almoçar no Botequim Informal, nossa, que delícia o filé à milanesa". Mas se falasse isso de graça, porque haveria de ser pago um dia?

Dessa maneira, almocei num botequim qualquer, comi um file à milanesa normal. Bebi dois chopes regulares.

Ao fim do banquete, claro, café na mão (de uma determinada rede de lojas de café), meu sobrinho pediu para ir ao fliperama (eu sei, ninguém mais usa essa palavra) e nós é claro, atendemos.

O nível de estresse que já estava baixo, beirou -40° (tanto faz F ou C) enquanto disputava uma partida de Barcelona x Brasil, com direito a dois Ronaldinhos em campo.

Mas tudo que é bom, acaba. Resolvemos dar uma voltinha, quer dizer, uma volta (voltinha é o que a mulher faz pra gente analisar se aquela roupa deixou a bunda empinada) no shopping.

Pra resumir, a tarde de domingo num shopping do Rio, em três cenas.

O desastre começa durante a semana mesmo:

- Vai fazer o que Domingo?
- Ah, tava pensando em comprar uma casquinha no Mac e dar uma sentada no shopping...
- Ih, tem que chegar cedo lá então.

O terror não se limita aos jovens:
- Ih, deixa eu pegar o ônibus correndo, porque fulaninho já tá com a fralda toda cagada e eu vou lá no shopping trocar ele no fraldário.
- Aproveita e trás hipoglós num lencinho que o daqui já tá acabando.

Pra desestressar, minha mulher resolve fazer compras:
- Oi, gostei daquele jogo verde ali, quanto tá?
- Deixa eu confirmar... Trinta e nove e noventa.
- Beleza, vou levar.
- Só um instante... Humm, não tenho mais dele não.
- Bom, eu levo o que tá exposto mesmo. Faz um desconto.
- Ah, mas eu não posso vender... Regra da loja, não posso deixar de expor.
- Ué, a regra é não deixar de expor o produto que não tem pra vender??

Ufa, ainda bem que falta pouco pra segunda-feira agora.

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007



Uni-duni-tê

Coisa boa de se tornar um ser imerso na Internet é rir de tudo que se diz absoluto, correto. Você vê a tal campanha do Estadaço. A World Weird Web brasileira tem 15 milhões de ruivos de aparelhos contando mentiras pra pegar mulher gostosa. Já os jornais de "respeito" do país têm seus 15 editores-chefes, totalmente éticos, livres de comprometimento com picuinhas político-sócio-econômico-pessoais.

Quando eles publicam que os bancos financiaram a campanha do presidente eleito e esquecem de mencionar que os mesmos bancos também financiaram a campanha do segundo colocado, eles simplesmente estão otimizando o espaço jornalístico. Tal omissão não tem nenhum viés de associar lucros recordes dos bancos com a atual gestão do país.

Quando eles publicam que não se pode confiar em qualquer coisa que você lê, eles não estão dizendo que você também não pode confiar só no que alguém escreve. No fundo, você pode mentir omitindo a verdade ou contando apenas uma parte dela. Esse é o perigo de usar apenas uma fonte para se manter informado.

Pense bem, em que é melhor confiar: (a) num infinito de pequenas vozes semicaóticas e independentes ou (b) num seleto grupo de mega-corporações de mídia voltadas ao lucro e a sustentação de seus donos, acionistas e empresas afiliadas?

Acho que você já entendeu que a resposta não é imediata.

Vivo num embate com colegas sobre o poder de processos & métodos e o poder do talento. O que eu nunca entendi foi como a discussão ao longo da história colocou cada coisa em lados opostos da mesa: processos vs. pessoas.

O que é mais importante num carro? O volante, o acelerador ou o freio? Se você escolher um dos três, nem me ofereça carona!


PS: O Mamendex de hoje foi assim, pá e bola, rapidinho. Estamos testando um novo formato mais post, fast, mix, fashion, prime, ...

Gostou? Não gostou? Tanto faz? Comente, ligue, mande um e-mail, poste um vídeo-resposta, comunique-se!



Cutucada rapidinha

Apesar do esforço da Veja, não é que mais uma crise econômica mundial passou pelo Brasil que nem marola?

Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007



King Kong na terra dos Simpsons

Dizem que quem não conhece o passado está condenado a cometer os mesmos erros repetidas vezes.

Mais estranho é que, mesmo conhecendo bem o passado, existe gente com essa tendência masoquista de errar tudo de novo e outra vez. Eu mesmo, de tempos em tempos, cismo que posso fazer determinadas coisas que só me causam estresse e dor de cabeça, não necessariamente nessa ordem.

E quem foge de cometer os mesmos erros, acaba por conhecer erros novos. O que, convenhamos, é o que faz a vida valer a pena.

Todo mundo deve ter visto pelo menos uma das versões do filme King Kong (este, ou este, ou este). De como ele é retirado de sua vida de rei na sua pequena e remota ilha para ser atirado aos lobos e tubarões da grande e movimentada Nova Iorque.

O que poucos sabem é que, na verdade, King Kong não foi capturado, por assim dizer. Conste para o bem da verdade que o gorilão-rei foi convencido a tentar carreira na Broadway, graças à lábia do capitão do navio e a sua ambição de ver o mundo e influenciar toda uma geração. O resto da história é uma catástrofe, seguida de uma tragédia.

Após o hype e seus 15 minutos de fama, o macacão logo caiu no esquecimento - em parte graças à estréia de O Fantasma da Ópera. Num turbilhão de depressão, drogas e alcoolismo, Kong seqüestra sua ex-mulher enquanto é perseguido por metade da NYPD.

Todos choram ao ver o simpático gorila de 10 metros de altura ser alvejado pelos modernos aviões da US Air Force, mas a parte mais triste pra mim ocorre pouco antes: o início da subida ao Empire States. Esse é o momento decisivo. Enquanto estava nas ruas, Kong podia ser imobilizado, acertado com tranqüilizantes, sei lá. Mas após o 15º andar, não tem mais volta. Ele sabe que vai morrer.

Muitos se perguntam se ele fez isso para ver um último pôr do sol. Por que ele não decidiu simplesmente fazer as malas e voltar pra seu pequeno reino distante, fazer o milésimo gol e encerrar a carreira num time de várzea qualquer?

O fato é que Kong sabia que estava condenado a cometer os mesmos erros. E a morte não é opcional.

Lembrei do Big Ape em Big Apple porque lembrei de mim numa terra distante, perdido numa noite fria.

Era o primeiro dia de neve do inverno, acompanhado da minha primeira noite de neve na vida. Estava ansioso pra voltar ao apartamento - seria a segunda vez que cumpriria tal trajeto - mas a cidade era bem sinalizada, então não tinha erro.

Saí do estacionamento, peguei a esquerda e segui até a rua principal. No sinal, entrei à direita. "Beleza, é só esperar passar a 18 mile e manter a esquerda, contornar na primeira que aparecer".

Quando finalmente avistei uma placa, eu congelei. Coberta de neve, o nome da rua era impossível de enxergar. Todas as placas de trânsito estavam assim, digamos, em branco.

Lutei muito até me considerar perdido. No primeiro posto de gasolina que avistei, parei e corri ao telefone.

Ah, meu primeiro contato com uma noite a -11° C...

Fui procurar o telefone do Paul para pedir ajuda. Mas era difícil tirar o papel do bolso com as luvas cobrindo os dedos e tremendo como uma máquina de lavar velha. Como as luvas de longe não eram apropriadas praquele frio, resolvi arrancá-las.

Pronto, telefone na mão, seguiu-se a tarefa de discar os números. Lambia os dedos entre uma tecla e outra. Errei só duas vezes até finalmente acertar toda a sequência.

Pontas dos dedos doloridas, é hora de colocar as moedas. "Minha nossa, se uma cair no chão coberto de neve eu não acho mais e não consigo ligar pra ninguém". Pensei pela segunda vez que talvez fosse morrer ali... Ensaiei uma posição mais digna para ser encontrado.

A última moeda encaixa perfeitamente, o telefone chama, ele atende. "Paul, sou eu. Acho que tô perdido". Um instante doloroso de silêncio, ele responde: "Humm, já tô em casa, do outro lado da cidade... Faz o seguinte, tenta se informar por aí, se você continuar perdido me liga de novo".

Pra quê mencionar que minhas moedas tinham acabado, ou que minhas unhas estavam roxas, ou que minha cabeça já doía (novidade...) de frio?

Entrei na lojinha do posto. Até já tinha esquecido como era bom se sentir aquecido... O rapaz (com cara de paquistanês), com a ajuda de uma menina (com cara de americana) começa a me explicar. Dada minha expressão (com cara de "entendi xongas"), começam a desenhar um mapinha, perguntam se eu era mexicano - "Não, brasileiro" - me entregam o papel e desejam boa sorte. "Qualquer problema, volta aqui". Eu não sabia nem se conseguiria voltar.

A noite cinza e branca avançava enquanto eu entrava no carro.

Eu ainda não sabia, mas a bonita ruela, típica dos subúrbios americanos, com suas caixas de correio e enfeites de Natal, iria aparecer logo em seguida e me guiar para o apartamento.

Pensando bem, alguns erros a gente se arrepende é de não poder cometer mais vezes.

Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007



Humor, emprego, ócio e gêmeos maus

Falar de si mesmo nunca é fácil.

Piora um pouco quando o você ao qual você se refere é na verdade um pseudônimo de seu alter-ego. Um personagem para o qual você dedica seu potencial e canaliza assim a energia que era desperdiçada no seu dia-a-dia como você mesmo (quem come quem??).

Essa dedicação ocupa seu tempo, claro, e muitas vezes atrapalha sua identidade original. Assim, o que era pra ser um hobby acaba estressando mais do que deveria.

E assim resolvi fazer terapia com uma profissional de verdade.

Eu não soube definir se seria uma terapia ocupacional, grupal, coletiva, já que éramos dois os envolvidos (eu e eu mesmo). Quando eu soube que só eu mesmo já era 3: id, ego e superego; fiquei boquiaberto. Cacete, somos 6 sentados aqui nessa cadeira então, doutora?

Comentei com minha terapeuta, ao reclamar do trabalho, que eu não me sinto realizado com isso.

- O que te deixa realizado então? Com o que você gosta de trabalhar?
- Eu não gosto de trabalhar. Acho que nasci pra outra coisa.
Ela riu. Minha terapeuta riu de mim. Até hoje não sei se uso essa minha capacidade - de fazer as pessoas rirem de mim - de forma construtiva.

- Tia Terapeuta, e se eu for na verdade meu gêmeo mau?
- Nosso tempo acabou. Que tal terça às 10h?
Resolvi pesquisar a fundo essa história de gêmeo mau pra poder explicar melhor.

Segundo consta (na Wikipedia), o gêmeo mau (ou maligno) reflete a dicotomia entre o bem e o mal que existe dentro de nós. Seu gêmeo mau é a cópia exata de você, exceto por ser moralmente antagônico e possuir cavanhaque. Ou seja, ele é na verdade o que você gostaria de ser: uma pessoa livre dos tabus e regras sociais, disposto a fazer de tudo pra conseguir seus objetivos, e que ainda por cima tem menos trabalho pra fazer a barba.

A origem do gêmeo mau está na própria origem do conceito bem x mal: a religião. Consta que o primeiro gêmeo mau foi Cain. Embora não fosse exatamente gêmeo de Abel, era mau o suficiente pra se encaixar na definição...

Vida de gêmeo mau é difícil, pois tudo que ele faz perturbar o gêmeo bom. E o destino do gêmeo mau é ser destruído, ou receber prisão perpétua. O final alternativo é quando o gêmeo mau tira o cavanhaque e faz com que o gêmeo bom seja morto em seu lugar. A moral é que no mundo da ficção não há lugar para gêmeos...

Na literatura, Beowulf é considerado como abordagem do tema, pois apesar de o monstro não ter nenhuma aparência física com o herói, é na verdade a inversão das ações dele.

Em Jornada nas Estrelas, outro exemplo intrigante, enquanto o gêmeo mau de Spock usava adequadamente o cavanhaque, o gêmeo mau de Kirk tinha a cara limpa...

Vários exemplos de gêmeos maus: O Homem da Máscara de Ferro, High School Musical, Futurama, Os Simpsons (nos dois últimos, assim como em South Park, o personagem principal é que era no final das contas, o gêmeo mau). Até em jogos, como Metroid Prime e Zelda. A influência é tamanha que em Lost chegaram a dizer (numa cena deletada) que "só é novela quando o gêmeo mau aparece". Uma pista sobre futuras temporadas?

Com o tempo, o conceito de gemeo-malignidade foi se expandindo, menos preso aos clichês. Surgiu a idéia de universo espelho, composto de gêmeos maus dos habitantes do universo original. Num episódio de South Park que aborda o tema, o gêmeo mau de Cartman (devidamente cavanhaquezado) era, na verdade, muito gentil.

O Bizarro por exemplo, gêmeo mau do Super-homem, casou com uma gêmea má da Lois Lane e gerou todo um Mundo Bizarro, onde a chuva cai pra cima, as zebras caçam as leoas e o Governo paga imposto aos habitantes.

A gêmea má da Lois Lane não tem cavanhaque. A bem da verdade, as gêmeas más não costumam se diferenciar no pelo facial, mas sim pela cor ou tamanho dos cabelos, ou mais recentemente, pelo sotaque. Truque oriundo das novelas de rádio, onde obviamente, as diferenças entre os gêmeos não são físicas, mas sim no timbre da voz.

Ainda no caso do Super-Homem, ele tem um gêmeo mau - Bizarro - um alter-ego - Clark Kent. A diferença entre os dois últimos, bizarrices à parte, estaria em ter a mesma índole (alter-ego) ou a índole inversa (gêmeo mau) do personagem.

Então não sou meu gêmeo mau. Sou só um simples alter-ego mesmo. Menos mal :)

Confesso, tem sido cansativo administrar essa micro-empresa. Domínio, DNS, Blogger, Google Apps, Adsense... Mas nada disso se compara a outra opção: me dedicar ao meu emprego!

Brincadeiras a parte, meu emprego tem exigido muito de mim e me sinto frustrado em não conseguir responder à altura. Mais frustrado do que quando tenho que ouvir quieto as piadas do tipo "é isso aí, funcionário público tem muito tempo livre pra ficar escrevendo blog...".

Palavras fortes, venenosas... doem bastante.

Mas se uma geração de grandes escritores brasileiros surgiu dos servidores do Governo, então eu sou só a continuação dessa história. Afinal, quem foi que disse que Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade não eram servidores altamente dedicados?

Na segunda-feira, observando a lua (que por sinal estava um cartão postal), eu pensei que talvez minha vocação fosse exatamente essa: não fazer nada e contemplar tudo. Talvez eu seja um Vinicius de Moraes, ou um Tom Jobim, ou um Pablo Neruda, só que sem nenhum talento.

Se pra ser um grande poeta ou um grande brasileiro é necessário algum talento, então eu precisava de uma segunda opção. Talvez eu pudesse ser um monge budista.

Consegui alguns livros, estudei bastante. Mas acho que não levo jeito. Eu não poderia mais fazer churrasco, andar a cavalo, fazer sexo, roubar, etc. E ainda ia querer rediscutir várias das regras milenares. Como é que é essa história da Flor de Lótus aí?

Não gosto de reconhecer, já que admiro tanto o trabalho árduo, mas minha vontade mesmo é a de ser vagabundo. Pensando bem, talvez isso seja por si só um talento.

Um ponto positivo foi ter nascido no Brasil. Nosso país é o único no mundo que garante o direito universal à vagabundagem. Em especial no Rio de Janeiro, terra da praia às segundas-feiras.

Por exemplo, em que outro país você poderia colocar uma cadeira e ficar sentado na porta de um banco o dia inteiro, simplesmente observando o vai e vêm do gerente, funcionários e clientes? Enquanto você não sacar a arma e anunciar o assalto, ninguém pode te tirar dali.

Muito calor dentro de casa? Pegue o colchão e durma na rua, na marquise de qualquer prédio. Ou fique só deitado ali, com sua cervejinha, observando o cair da tarde de domingo. Ou de terça. Mais uma vez, ninguém pode te obrigar a sair dali. E se a marquise cair, você ainda ganha uma boa indenização...

Dizem que é proibido tomar banho no chafariz, mas eu nunca vi ninguém ser reprimido por isso... nem por lavar a roupa. Na dúvida, não passe xampú, pra caso tenha que sair correndo não ficar com o cabelo todo seboso.

E a grande dica: mantenha uma caixinha no chão por perto porque sempre tem uma velhinha distribuindo trocados para quem mantém viva a autêntica malandragem carioca...


Serviço

Mais sobre gêmeos maus na Wikipedia em inglês ou português.

Onde comprar os livros, filmes, séries, quadrinhos e jogos citados: Vinicius, Jobim, Superman, Jornada nas Estrelas, South Park, Futurama, Os Simpsons, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda.